Praticar Karate não consiste única e simplesmente em envergar um uniforme branco e entrar num espaço próprio, o dojo, onde se vão aprender umas quantas técnicas de defesa e ataque.
Significa, sim, empenhar-se no estudo de uma Arte Marcial que, para lá da técnica que lhe é própria, procurar transmitir ensinamentos de ordem ética e comportamental que levem o praticante a enriquecer-se espiritualmente e a aprofundar a sua capacidade de se respeitar e de respeitar os outros.
Por isso mesmo é importante que o Karateca se compenetre do significado de actos aparentemente estranhos (porque não fazem parte da nossa vida quotidiana de ocidentais), como saudações no início ou fim dos treinos ou de determinadas fases dos mesmos ou o mais complexo ritual do final de um treino. Trata-se de atitudes destinadas a manifestar e consolidar o respeito pelos instrutores presentes no dojo, pelos colegas mais próximos com quem vamos treinar ou com quem acabámos de treinar e, ainda, de respeito pelos mestres que, não estando presentes, são de factos os orientadores da nossa pratica e os inspiradores cujo modelo seguimos.
Mas existem ainda outros aspectos do comportamento do Karateca que devem ser conscientemente assumidos, como a pontualidade e a assiduidade aos treinos - na verdade, o Karateca que neste domínio não é disciplinado, é e será sempre um mau praticante, pois não só prejudica a sua aprendizagem e o seu progresso como compromete o trabalho do seu instrutor e dos seus colegas.
Contudo, ser pontual e assíduo não são atitudes suficientes para definir ou ajudar a formar um bom praticante: são igualmente importantes factores como a higiene pessoal e a apresentação limpa e cuidada do karategi em todas as circunstâncias. Mais importante que a cor do cinto que se usa é a aparência de saúde e respeito por si próprio que a higiene pessoal inspira.
Praticar Karate Shotokan, segundo as normas e espírito da SKIPortugal, significa não só adquirir a maior perfeição técnica como saber respeitar a integridade física de cada praticante. Mesmo nas fases mais duras da prática do Kumite em treino ou mesmo em competição, uma preocupação sempre presente deverá ser a de não agredir ou ferir voluntariamente o colega de treino ou adversário de cada combate (que, muitas vezes, são uma e a mesma pessoa). Para tal, exige-se não só do praticante a posse de um perfeito comando dos seus movimentos, de bom controle da sua agressividade ou força física (ou seja, correcção técnica) como grande disciplina naquelas "pequenas" coisas que poderão ir contra o bem-estar físico de cada praticante de Karate, como seja ter o máximo cuidado no corte das unhas das mãos e dos pés e nunca usar objectos que, no dia-a-dia de cada um de nós são perfeitamente inofensivos, numa situação de contacto físico mais viril poderão transformar-se em fonte de lesões e ferimentos, como os relógios, pulseiras, brincos,... Ou seja, a própria higiene e apresentação do praticante contribuirão também para aumentar a sua segurança física e o seu bem-estar. Mas um Karateca não é arruaceiro. E, se é bem verdade que todo o cidadão tem todo o direito à legítima defesa quando atacado, não é menos verdade que praticante de Artes Marciais possui ou está a caminho de possuir conhecimentos de técnicas de defesa e ataque que o tornam potencialmente perigoso para um antagonista não iniciado em Artes Marciais. Por tal motivo, faz parte da disciplina de todo o Karateca "esquecer" o que aprender no preciso momento em que abandona o dojo onde acaba de treinar e nunca fazer uso de técnicas aprendidas nos treinos a não ser para defender a integridade física do próprio ou dos seus em situações de extremo perigo ou quando eventualmente confrontado com adversários mais fortes ou perigosos e quando não encontre outra solução menos violenta. Talvez exija mais disciplina não agredir ou não ripostar do que exibir a sua "arte" e cair nos comportamentos da marginalidade. Por aí também se verá quem é um bom praticante fora e dentro do dojo...